sábado, 14 de setembro de 2013

Scott Westerfeld

Feios


   Olá, pessoas! Hoje a resenha vai ser sobre o livro Feios, que é o primeiro volume da série de mesmo nome. A história se passa em uma cidade futurista que segrega sua sociedade em duas partes. Uma dessas partes é habitada apenas pelos ''Feios'', e a outra, pelos ''Perfeitos''. Nenhuma das partes pode ter qualquer tipo de contato com a outra, e, obviamente, o mundo dos perfeitos é extremamente mais sedutor que o dos feios. 
    Para o alívio daqueles que habitam a Vila Feia, eles um dia também se tornarão perfeitos, tudo que precisam fazer é esperar até completarem 16 anos. Quando essa idade chega, os feios passam por uma cirurgia promovida pelo governo, onde eles são completamente modificados. Todas as imperfeições somem, os olhos ficam maiores, a boca fica mais carnuda, a pele é trocada, e até mesmo os ossos são substituídos por uma liga artificial resistente e leve.
  Uma coisa bastante interessante dessa sociedade é que ela é posterior a nossa, então, somos citados várias vezes na obra. Claro que não possuímos nenhuma das denominações empregadas na sociedade futurista, como ''Feios'' ou ''Perfeitos'', temos um denominação própria, e somos citados como um belo exemplo do que não ser. Enferrujados é como nos chamam, criaturas mesquinhas, fúteis e destrutivas. Todo o Estado novo procura ser totalmente contrário ao antigo. A cidade é auto-sustentável e a aparência deixa de ser fator determinante entre as pessoas, já que todos se tornarão perfeitos.
    Tudo parece ótimo, ainda mais para a personagem principal do livro, Tally, que está prestes a completar seus 16 anos e finalmente tornar-se uma perfeita. O problema é que, nesse meio tempo, ela conhece Shay, e as duas tornam-se grandes amigas, e, ao contrário de Tally, Shay não quer se tornar uma perfeita. Ela quer permanecer feia e fugir da cidade, já que todos são obrigados a passar pela cirurgia. Nesse ponto, a protagonista fica dividida entre fugir com Shay, ou tornar-se uma perfeita assim como a maioria. Shay quer encontrar com outros feios que também fugiram, os Enfumaçados. Esse grupo é perseguido desde os primórdios pelo governo, ou melhor, pelos ''Especiais''.
    Os especiais são perfeitos melhorados, eles possuem um preparo físico muito melhor e todos os sentidos mais apurados. Tally acaba sendo procurada pelos especiais como uma possível cúmplice de Shay, e eles lhe fazem uma proposta: ou Tally foge com a amiga e entrega a localização dos Enfumaçados, ou nunca se tornará uma perfeita. Nesse ponto, a protagonista não vê outra solução, acaba fugindo com Shay, rumo ao vale dos Enfumaçados. Até esse momento, ela está decidida a entregar todos enfumaçados, em parte porque quer tornar-se uma perfeita, mas também porque acha que todos aqueles feios fugitivos são completamente malucos e precisam da ajuda do governo.
    Mas como nem tudo são flores, Tally se encanta pelos enfumaçados, percebe que sua cidade auto-sustentável não é tão boa quanto parece, e acaba descobrindo que a cirurgia para se tornar perfeito não muda apenas a aparência. Ela se apega aos moradores daquele local, e resolve ficar com eles, mas os especiais já descobriram a localização do vale e pretendem destruir tudo que foi construído por aqueles feios rebeldes. 
   O principal tema do livro é a aparência, os padrões de beleza impostos pela sociedade. Em uma primeira lida, você pode até pensar que o autor propõe uma solução para os problemas desencadeados por um padrão que não pode ser alcançado naturalmente. Mas quando notamos a diferença que existe entre os feios e os perfeitos, percebemos que isso só agrava o problema. Essa diferença vai desde o tratamento recebido até os diretos e deveres desses dois grupos. A vida dos perfeitos é uma vida sem preocupações, regada de luxúria, diversão e festas, enquanto os feios apenas sonham, dia após dia, com a perfeição do outro lado da cidade.
   Quando o autor descreve os feios, nota-se que a definição de ''feio'' e ''bonito'' é completamente inútil, essa é uma questão que depende de fatores sociais e culturais. Os feios da obra são pessoas como eu e você, pessoas com diferenças: umas possuem olhos maiores, narizes menores, bocas mais largas, cores diferentes, cabelos enrolados, e só são considerados feios porque não possuem o padrão que o governo criou, o padrão ''perfeito''.
   Notamos apenas as crises existenciais dos feios, porque os perfeitos não possuem profundidade emocional nenhuma, estão tão acostumados a viver uma vida em que todos os desejos são realizados, que tornam-se marionetes do governo, vivem de acordo com que é imposto e nem percebem. Eles quase chegam a ser burros, tamanha a ignorância que os cerca. A vida que levam é fútil, apenas preocupados com a próxima festa que irão participar, querendo trocar de aparência para se tornarem ainda mais perfeitos e serem cada vez mais queridos pelos outros devido à beleza.
     Seria cômico se não fosse trágico, ou melhor: seria cômico se não fosse realidade. Vivemos cercados por pessoas como os perfeitos e os feios. Pessoas que vivem de aparência e pessoas que se sonham em viver dela também. Os que se recusam a ser dessa forma são vistos como aberrações, sofrem preconceito tanto dos perfeitos, quanto dos feios. A diferença assusta, por isso é repudiada por aqueles que vivem em seus mundos cheios de medidas e padrões, cheio de regras a serem seguidas. Até que ponto você iria para deixar de ser você mesmo e tornar-se o que os outros desejam que você seja?

''O estilo é o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, só provará que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso.'' Sêneca

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